O que o esporte de alto rendimento pode nos ensinar sobre ser um profissional de alta performance?

campo de futebol

Aqueles que acompanham meus artigos, sabem que eu sempre utilizo analogias que comparam o esporte e os atletas de alta performance, ao mundo dos negócios e aos profissionais focados em gerar resultados excepcionais em suas carreiras.

No artigo dessa semana, compartilharei com vocês uma enriquecedora entrevista, feita por mim e pelo meu time, com o hexa-campeão latino-americano de tênis de mesa: Hugo Hoyama.

Biografia do Atleta:

Hugo começou a jogar tênis de mesa aos 7 anos de idade. Participou de 6 Jogos Olímpicos entre 1992 e 2012 e 7 Jogos Pan-americanos, entre 1987 e 2011.

Conquistou 15 medalhas em Jogos Pan-americanos: 10 de Ouro, 1 de Prata e 4 de Bronze; 18 Campeonatos Mundiais e é Hexa-campeão Latino-americano.

Além de se destacar como atleta, Hugo também é treinador da Seleção Feminina de Tênis de Mesa. Sua equipe ganhou todos os títulos que disputou na América Latina, foi bi-campeã Latino-americano, campeã dos Jogos Sul-americanos, e o mais importante, conquistou o Campeonato Mundial da 2ª divisão no Japão.

Em 2011, após se dedicar por 38 anos ao esporte, Hugo realizou o sonho de fundar o Instituto Hugo Hoyama, uma instituição sem fins lucrativos que tem como missão  promover e fomentar o tênis de mesa. 

Uma modalidade baseada em princípios, valores e atitudes, que contribui para a formação educacional, cultural e o desenvolvimento da cidadania. Além de ser uma ferramenta muito importante para a inclusão social.

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[SF] Quais foram as principais lições que o esporte te ensinou?

[HH] Foram muitas as lições que aprendi dentro do esporte, desde pequeno (comecei  a jogar o tênis de mesa com sete anos) disciplina, educação e o respeito, foram pilares em minha vida, que se eu não tivesse levado a sério, não só dentro do esporte, mas como fora dele, teria sido muito difícil ter alcançado os meus objetivos.

E claro que isso não veio só do esporte, a educação e disciplina, vieram de dentro de casa, tive a felicidade de ser bem educado pelos meus pais, o que fez com que ficasse mais fácil de eu poder usar isso nos meus treinamentos dentro do esporte.

Realmente quem leva isso dentro de si, tem a chance de ser um grande vencedor e um grande campeão.

[SF] Você construiu a sua carreira e ganhou maior destaque em um esporte individual, mas tenho certeza que apesar disso existia uma equipe que te apoiava nos bastidores, qual a importância da equipe para o sucesso?

[HH] Claro que o Tênis de Mesa, é um esporte individual onde se joga contra um adversário, mas para que eu possa estar ali “dentro da mesa”, enfrentando qualquer adversário de igual para igual, a equipe como um todo sempre foi muito importante.  

Desde o meu técnico e meus companheiros de equipe. Hoje é muito importante o trabalho multidisciplinar, com grandes orientadores na parte nutricional, mental e na parte física também, fazendo todo o trabalho em conjunto e com a confiança de todos. Não só eles confiando em você, mas, você confiando neles, isso é fundamental para que você possa alcançar o seu sucesso.

[SF] Como lidar com a pressão? Quando o seu resultado de ontem, a sua medalha já conquistada, não é garantia nenhuma de sucesso no hoje? Você tinha metas? 

[HH] Lidar com a pressão é uma das partes mais difíceis dentro do esporte, acho que em qualquer área isso é muito difícil, você tem de fazer um trabalho mental bem importante para que você possa lidar com essa pressão, estar sempre confiante, sempre positivo, com os pés no chão e tentando, claro, da melhor maneira possível usar a concentração, estando bem concentrado você consegue lidar melhor com essa pressão.  Você nunca pode “entrar na mesa” pensando só na vitória, mas, acima de tudo pensar como chegar à vitória, o que fazer, para chegar  à vitória.

Eu tinha um trabalho mental muito importante durante oito, dez anos com o Professor Nuno Cobra, onde não só trabalhou a minha parte física, mas principalmente ele trabalhou muito a parte mental, ele fez com que eu chegasse em um momento onde eu não pensasse em nada no jogo, uma coisa que é muito difícil – você chegar e jogar sem pensar em nada, e deixar o jogo fluir, onde realmente aconteciam as minhas melhores jogadas, conquistei as minhas maiores vitórias, e do outro lado também, quando eu tinha na cabeça que tinha de ganhar o jogo, ficava muito mais difícil, principalmente jogando com adversários mais fortes, de um nível mais alto, eu sabia que se eu conseguisse encaixar o meu jogo, sacando bem,  atacando bem, eu poderia vencer qualquer adversário. Mas com alguns desses grandes adversários na hora “H”, ali, na decisão de pontos da vitória, e quando eu pensava agora é a minha chance de ganhar, normalmente eu perdia, porque eu não estava deixando o meu jogo fluir como eu estava deixando até aquele momento. 

Por isso que essa parte da pressão e da concentração é uma parte muito difícil, quando você chega no alto rendimento, no alto nível, em uma grande competição  como os Jogos Pan-Americanos, Olimpíadas e você estando com isso forte, tem a chance de conquistar o resultado que você tem como meta.

Eu sempre coloquei metas também –  eu nunca treinei para ver onde poderia chegar, eu treinava para chegar naquele lugar, e isso me ajudou muito para que eu pudesse realmente ter conquistado tudo que eu conquistei até hoje.

[SF] O que você faz para se preparar? 

[HH] Para me preparar antes do jogo o que eu faço é realmente me concentrar, principalmente nas principais jogadas que eu poderia fazer, ter a maior confiança possível de que vai dar certo, e lógico, pensar no jogo do meu adversário, o que ele tem de forte, o que ele tem de fraquezas para eu afetar mais a parte fraca dele e evitar os pontos fortes. 

Parece uma coisa simples, mas se você tem isso dentro da sua cabeça, você vai mais preparado pro jogo, do que se você entrar pro jogo sem ter nada sobre o seu adversário, então é uma fase muito importante, essa preparação, de você estar buscando a sua melhor concentração, para que na hora que você “entrar na mesa”, desde o primeiro ponto até o último, você esteja consciente e confiante no que tem de fazer durante a partida.

[SF] Você buscava inspiração em outros atletas? 

[HH] É muito importante você buscar inspiração em outros atletas, não só do seu esporte, mas de outras modalidades, até hoje, mesmo como técnico, eu me surpreendo e fico muito feliz de ver atletas mais experientes ainda conquistando os seus resultados, são vários atletas nesse nível, um dos principais com certeza, é o tenista, Roger Federer, depois de um tempo um pouco abaixo do que ele podia fazer, tenho certeza que ele colocou na cabeça dele jogando no alto nível, que a parte da concentração era importante e ele focou muito nisso. E eu sempre falo que não existe idade para você alcançar o seu objetivo, claro que é mais difícil, e isso dependendo muito do esporte, é claro. Eu felizmente consegui jogar até os 43 anos, eu realmente me preparei para isso.

Eu vejo nesses outros atletas, não só a experiência com atletas jovens, que estão conquistando grandes resultados, a gente sempre busca inspiração para poder passar pros atletas, e hoje principalmente como técnico, não somente para mim, mas preciso pensar nesse momento, nas minhas atletas e é isso que eu faço, acredito que a gente vem obtendo grandes resultados por isso também.

[SF] O que você fazia quando cometia um erro ou quando não alcançava o resultado que esperava em uma partida ou campeonato? 

[HH] Quando eu cometia um erro ou não alcançava o resultado esperado, eu sentava para tirar as lições. Quando a gente é mais jovem, e acontece muito, e eu escuto muito isso hoje, é –  ou eu joguei mal e perdi, ou eu ganhei, porque joguei bem. E não é bem assim.

Muitas vezes você pode jogar bem e perder uma partida e muitas vezes você pode jogar mal e ganhar uma partida. O importante é quando você erra ou quando você não alcança o seu resultado, é continuar com a sua confiança, continuar com a sua luta, e principalmente, tirar lições destas partidas que você perdeu ou o campeonato que você perdeu, para mim, o grande exemplo foi em uma edição dos Jogos Pan-Americanos – eu tive a felicidade de participar de sete edições, dos sete, somente em um, eu não conquistei medalha de ouro, que foi em Winipeg, em 1999 –  se eu tivesse desanimado ali, com certeza eu não teria continuado lutando e conseguido medalhas, em 2003, 2007 e 2011, eu vi o que fiz de errado ali, isso foi importante para preparação, um pouco mais de concentração e mais confiança, àquele campeonato, realmente foi onde parece que eu fui com a cabeça não muito boa, e isso afetou muito no meu desempenho, e nos seguintes eu já fui melhor preparado e pude novamente lutar e trazer as medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos. No alto rendimento você precisa lidar não só com as vitórias, mas principalmente com as derrotas, porque você tirando essas lições, as chances de se recuperar é muito maior a continuar obtendo sucesso na carreira.

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São diversas as lições que podemos extrair da história desse grande atleta. Listo abaixo as que mais me impactaram, mas convido vocês à reflexão sobre quais outras poderão contribuir para o seu desenvolvimento como um profissional de alto rendimento:

  1. Ter a disciplina, a educação e o respeito, como bases para conquistar resultados.
  2. Apostar na construção de equipes multidisciplinares e com profissionais em que você possa confiar.
  3. Ter treinamento mental para lidar com a pressão, desenvolvendo a autoconfiança, mantendo o pensamento positivo, mas com os pés no chão e exercitando sempre a concentração.
  4. Não basta “entrar no jogo” desejando a vitória, é preciso ter uma estratégia, do começo ao fim, de como chegar nos resultados desejados.
  5. Se preparar e trabalhar sempre com um fim em mente, com um objetivo claro, com metas.
  6. Conhecer muito bem seus adversários, o ponto forte e fraco de cada um deles e ter um bom planejamento para fazer melhor que eles.
  7. Buscar inspiração nos melhores, sejam eles do seu mercado ou não.
  8. Aprender sempre com os erros, mas sem perder a autoconfiança.

A alta performance e a busca por gerar resultados positivos, aliás por gerar os melhores resultados sempre, são, na minha visão, o principal ponto que une executivos, empreendedores e atletas de sucesso. 

E você, o que aprendeu com a esporte, seja com a história do Hugo Hoyama, com outros esportistas ou até mesmo com as suas experiências pessoais no esporte, que pode utilizar hoje no seu desenvolvimento profissional?


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