De tanto sonhar e não dar certo, virei presidente!

Pessoas caminhando

Na semana passada, fui convidado para dar uma entrevista para o João, um dos sócios da Empresa Hashtag Treinamentos. Eles ministram diversos cursos presenciais e online. O briefing que me havia sido passado foi bem curto: “contar um pouco sobre a minha trajetória profissional”. O público-alvo eram  alunos e potenciais alunos da escola.

Como de costume, antes da entrevista fui me preparar e ao entrar no site da empresa uma frase na página inicial me chamou a atenção:

Seja aprovado em qualquer processo seletivo e torne-se uma referência na empresa onde você trabalha ou vai trabalhar. Aprenda tudo de Excel, VBA e Power BI.

Não estou usando este espaço para promover a empresa, mas apenas para dar o contexto da entrevista. Logo no início, o João deixou claro que a ideia seria compartilhar a minha experiência, principalmente como executivo, com os jovens que estão ingressando no atual mercado de trabalho e com aqueles que recém ingressaram e almejam sucesso na carreira no mundo corporativo. Os sócios tiveram uma ótima “sacada”: agregar um valor adicional para os seus clientes / alunos, compartilhando experiências do mundo real, além dos cursos em si.

Quando entendi o objetivo, a entrevista foi fácil e prazeirosa. Bastou buscar na memória os momentos mais importantes da minha carreira e que pudessem ser relevantes na formação destes jovens. Foi uma entrevista informal (como aliás, eu sou) e objetiva (como gosto de ser).

Gostei muito do resultado final, sobretudo porque ao terminar a entrevista, eu mesmo acabei fazendo uma reflexão e um exercício mental sobre os diversos momentos da minha carreira, as mudanças, as derrotas, os aprendizados, as vitórias…. e como “jovem” de 47 anos que sou, o quanto ainda há por fazer, nesta atual e novas etapas profissionais que ainda estão por vir.

Foi depois dessa reflexão que me dei conta que, após mais de 70 artigos publicados no LinkedIn, eu ainda não havia me “apresentado” à alguns de vocês, que talvez não tenham convivido comigo ao longo dos anos. Tão pouco havia explicado o objetivo destes artigos no LinkedIn e do blog que criei.

Sempre fui um leitor voraz, principalmente de livros, mas também de artigos e estudos relacionados à negócios e gestão. Foi assim que notei a escassez de cases brasileiros, escritos por executivos, empreendedores, acadêmicos, enfim, por gente que vive, ou que viveu a nossa dinâmica de negócios, que é muito particular.

Além disso, no meu caso específico, como estudei e trabalhei muitos anos no exterior, entendi que seria muito relevante compartilhar um pouco das experiências de um brasileiro gestor, como a maioria de vocês, em países e culturas bem diferentes da nossa.

Finalmente, eu estou escrevendo um livro, mas não queria simplesmente escrever sozinho. Não gosto de monólogos. Queria criar um espaço em que pudesse interagir com conhecidos e também com pessoas novas, de modo que esta troca realmente pudesse, de alguma maneira, agregar valor tanto para essas pessoas, quanto para mim, resultando em um livro escrito de maneira interativa e com feedback em tempo real dos futuros leitores.

Quero deixar claro que o objetivo deste artigo não é dar detalhes sobre a minha carreira e como fui galgando posições na pirâmide executiva até chegar a posição de Presidente da Chrysler do Brasil, no início de 2011. Alias, muita coisa aconteceu antes disso: me formei em Economia nos EUA e trabalhei em empresas de diferentes setores e em vários países. Quem quiser mais detalhes sobre a evolução da minha carreira, pode ir até a minha bio no próprio LinkedIn. O objetivo deste artigo é que vocês possam “pinçar” passagens e temas interessantes e que ao final da leitura, tenham mais perguntas do que respostas sobre às próprias carreiras e objetivos.

Antes de retornar ao tema da entrevista, volto um pouco ao passado.

  1. Planejamento de carreira ou flexibilidade?

Sonhei em ser jogador de futebol. Não deu certo. Sonhei em ser lutador de jiu-jitsu, mas a coisa também não foi adiante. A banda em que era o guitarrista e as vezes vocal, encerrou a “turnê”, após alguns poucos eventos no colégio. Como era um aluno aplicado, me restou sonhar em trabalhar no mercado financeiro e ficar milionário antes dos 30, sonho típico da geração do final dos anos 60 e início dos anos 70.

Sonho que também não deu certo. Após concluir High School e faculdade nos EUA, iniciei a minha carreira no mundo corporativo na terra do Tio Sam, ótima escola da cultura de negócios. Antes que me desse conta, virei executivo. Depois, virei consultor.

Não, o planejamento não foi fator determinante na evolução da minha carreira.

Evidentemente me preparei academicamente. Mas, parafraseando o Zeca Pagodinho, “fui deixando a vida corporativa me levar….”, sempre assumindo uma posição de muita flexibilidade.

Quando recebia um convite de trabalho, perguntava a mim mesmo:

O setor é interessante? Vou aprender? A empresa quer crescer? É séria? Vou conseguir dar a minha contribuição? Se a resposta para essas perguntas fosse sim, eu topava o convite.

Fui crescendo muito naturalmente nas empresas. Então ser flexível, neste mundo de tantas mudanças, me parece mais importante do que um planejamento engessado, utópico e, provavelmente, irrealista.

Aqui está a 1ª dica.

  • Mas como crescer?

Não me lembro exatamente em qual contexto surgiu a frase. Lembro que estava com um grupo de colaboradores. Nem lembro ao certo se o meu objetivo era inspirar, cobrar ou motivar. Mas o fato é que a pergunta saiu quase que por instinto: vocês sabem quem é o melhor amigo do homem?”. Após segundos sem resposta e expressões desconcertadas (pois afinal estávamos em uma sala de reunião), algumas respostas tímidas surgiram: “o cachorro, chefe”. Uma colaboradora discordou, dando o toque feminino: “o melhor amigo do homem é a mulher”. Então eu dei a minha resposta: “o melhor amigo do homo sapiens corporativo é o resultado!”

Pronto. Esta sequência de pergunta e resposta inusitada, eu voltaria a usar em diversas situações na minha carreira. Virou frase comum entre as minhas equipes ao longo do tempo.

Resultado, entrega de metas sem desculpas e com todas as dificuldades. O resultado é o maior companheiro dos homens e mulheres que pretendem trilhar caminhos de sucesso no mundo corporativo. Boas atitudes, comportamento, conhecimento técnico, experiência e bons relacionamentos, seguramente são peças fundamentais no quebra-cabeça do sucesso empresarial. Mas no final do dia, são os resultados excepcionais e consistentes, que farão a diferença entre um executivo bem-sucedido e aquele que ficará pelo meio do caminho.

Então, a segunda dica é simples assim: no mundo corporativo, cresce quem tem a capacidade de entregar consistentemente bons resultados. Quem não perde um segundo sequer lamentando o lado vazio do copo e consegue manter o foco na entrega do resultado esperado.

  • Eterno aprendiz

Ainda que os fundamentos dos negócios (de qualquer negócio) sejam os mesmos há séculos, a grande maioria das indústrias vêm passando por transformações constantes e as mudanças ocorrem cada vez com maior velocidade.

A experiência é, e sempre será, uma aliada da boa performance. O que não significa estar preso à conceitos ultrapassados.

A 3ª dica tem a ver com uma vontade de continuar se aprimorando e aprendendo sempre!

Vou tentar ser um pouco mais claro. Quando digo que os fundamentos dos negócios não mudaram, me arrisco a dizer que atender à uma necessidade (conhecida ou não), vender um produto ou serviço para um cliente (B2C ou B2B) dificilmente deixará de ser um dos pilares fundamentais de qualquer negócio. Agora as técnicas, as estratégias, as melhores maneiras de comunicar mudam e continuarão mudando.

Pensem que tive as minhas primeiras aulas de marketing na universidade….há 30 anos, quando não havia sequer a internet!!! Imaginem o quanto o marketing evoluiu de lá para cá? Aposto com vocês que o marketing que aprendemos e vivenciamos hoje já será diferente daqui a 2 ou 3 anos. Imaginem em 30 anos! Mas o fundamento de atender à uma necessidade de um cliente melhor do que o seu concorrente, não mudará. O caminho é estar o tempo todo agregando à experiencia acumulada, novos conhecimentos.

  • Gente

Normalmente, no início da carreira, somos contratados pela formação acadêmica, experiência profissional e principalmente competências técnicas. Mas na medida que subimos na pirâmide das organizações, as competências técnicas são cada vez menos relevantes. Em posições de liderança, as competências comportamentais são definitivamente mais determinantes.

Para ser um bom gestor (gosto mais da expressão líder), em primeiro lugar é preciso gostar de gente. É preciso desenvolver empatia, montar boas equipes, criar um ambiente em que as pessoas se sintam à vontade, que gostem de trabalhar em conjunto.

Um dos grandes mitos no mundo corporativo é que “o chefe sabe mais, é mais experiente” do que o colaborador. Eu cansei de ter pessoas nas minhas equipes que eram melhores do que eu em uma ou algumas competências. Aqui ressalto algo importante: um bom líder dever ter a pragmiudade (pragmatismo + humildade) para contratar pessoas melhores do que ele! Se cercar de gente boa. Os resultados e o crescimento profissional virão na sequência.

  • Paixão

A última dica que deixei para os alunos da Hashtag em minha entrevista, e que pode até soar estranha, quando falamos sobre gestão e negócios, é que para ter uma carreira bem sucedia e crescer até o topo, é preciso ter verdadeira paixão pelo que se faz.

Como eu sei disso?

Por experiência. Sempre dediquei uma boa parte do meu tempo, principalmente nos últimos anos da minha carreira como executivo, a entrevistar pessoas. Uma das minhas perguntas favoritas era: “o que você mais gosta de fazer no sábado à noite?” ou “o que mais gosta de fazer aos domingos logo quando acorda?”.

Aí eu tentava “gravar” mentalmente a expressão dos olhos das pessoas ao relatar momentos que normalmente estavam diretamente ligados à sensação de prazer. Em seguida, eu dizia: “me conta qual foi a sua melhor experiência na sua última empresa? Qual projeto mais te interessou?”. Neste momento eu comparava o brilho dos olhos dos momentos de prazer dos sábados à noite com o relato das experiências e projetos profissionais.

Quando os olhos brilhavam na mesma intensidade, normalmente eu ia em frente com a contratação. Quando o(a) candidato(a) não demonstrava o mesmo prazer ao relatar as experiências no trabalho do que quando falavam dos momentos de lazer…eu recuava.

Não aprendi isso nos livros. Aqui foi pura experiência acumulada. Descobri que um bom vendedor, aquele que tem paixão por vendas, vende nos finais de semana para os amigos. Não porque precisa, mas porque tem prazer.

Um executivo passa entre 60 e 70% do seu tempo (quando não está dormindo) trabalhando. Se não tiver enorme prazer no que faz, dificilmente conseguirá entregar para a empresa o máximo do seu potencial de maneira consistente.

Posso dar um exemplo pessoal, quando lançamos o Jeep Renegade no Brasil, a minha filha caçula ainda era novinha. A nossa brincadeira juntos era, todas as vezes que saíamos de casa, contar a quantidade de Jeep Renegades que víamos nas ruas. Era como se fosse uma pequena vitória, não apenas minha, mas de toda a família. Contar Renegades na rua sábados e domingos era um divertido exercício de paixão pelo que eu fazia naquele momento.

Felizmente ela cresceu e parou de contar, pois hoje, com o sucesso da Jeep, não faríamos outra coisa na vida a não ser contar Renegades por aí!!! Percebam que isso é diferente de ser workaholic. Adoro meus momentos de lazer, mas não são raros os finais de semana em que me encontro literalmente “mergulhado” nos números dos meus clientes de consultoria, buscando as melhores soluções…com paixão.

Para resumir as principais dicas que dei na entrevista para os jovens que almejam altos postos nas empresas:

– Flexibilidade – para aproveitar as oportunidades;

– Resultados – entregues de forma consistente;

–  Aprendizado –  deve ser constante;

– Gente – aprender a ciência e a arte de inspirar, liderar e desenvolver colaboradores;

– Foco – naquilo em que temos verdadeira paixão.

Depois de agradecer pela entrevista, o sócio e também entrevistador fez a última pergunta: “qual o conselho que o Sérgio de hoje daria para o Sérgio novinho, aos 21 anos ingressando no mercado de trabalho?”

…. e a minha resposta foi “Sérgio, não esqueça de buscar sempre o equilíbrio. Para ser bem-sucedido profissionalmente, você não precisa abrir mão da qualidade da sua vida pessoal. É possível sim, ser bem-sucedido e feliz”.

Então aqui ficam algumas dicas para você.

Espero que eu tenha conseguido fazer você refletir! Não deixe de compartilhar comigo seus comentários e feedbacks.


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